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Estudos para aqueles que amam esquadrinhar as escrituras

on Sexta-feira, 1 de julho de 2016

“Ó Senhor dos Exércitos, Deus de Israel, que estás entronizado acima dos querubins, tu somente és o Deus de todos os reinos da terra; tu fizeste os céus e a terra” - Isaías 37:16

 

    Olá querido, graça e paz! Hoje quero entrar em uma seara não muito confortável. O assunto da soberania de Deus tem sido debatido pelos mais variados grupos cristãos desde muito tempo, sem muita solução.

Não tenho a pretensão de ser a última palavra sobre o assunto, mas gostaria de acrescentar alguns pensamentos que venho estudando e desenvolvendo e que acredito, ajudarão você a formar seu pensamento nesse assunto.

    Nenhum cristão devoto terá dificuldade em concordar que nosso Deus é soberano. A Bíblia assevera sua soberania o tempo todo.

Gosto do argumento de Charles Hodge de que a soberania, mais do que um atributo, é uma questão de justiça. Seria injusto Deus ser qualquer coisa menos que soberano.

    Ele é o criador de todas as coisas, ele é perfeito, ele tem todo conhecimento e sabedoria. Paulo diz que em nosso Deus estão escondidos todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria. Ele é santo e justo e isso faz com que seja impossível que suas leis e mandatos sejam equivocados ou movidos pela maldade.

    De fato, Deus é sempre bom e não pode ser tentado pelo mal, como afirma a carta de Tiago. Por tudo isso, não caberia a Deus se submeter a qualquer criatura ou poder, pois é dele que emana toda a criação e poder.

 

O que é soberania?

Antes de avançarmos no raciocínio, devemos entender o que significa, exatamente, soberania.

    No Velho Testamento temos surpreendentemente poucas vezes traduzidas em nossas bíblias, em português, a palavra soberania. Mas temos, sem dúvida o conceito. As palavras que poderíamos citar aqui trazem sempre a ideia de governador, rei, ou dominador.

    No Novo Testamento também temos várias palavras que trazem a ideia de soberano e soberania mas, novamente, o conceito é de autoridade, como um rei, um governador, ou um mestre.

    Se consultarmos a teologia, teremos algo do tipo: “Soberania é o exercício da sua supremacia”, a razão pela qual Ele não consulta ninguém além do beneplácito da sua vontade. Concordo com essa definição do escritor calvinista A. W. Pink. Deus é soberano, isso quer dizer que ele não precisa do conselho, ou ordem de ninguém. Atender qualquer solicitação desse tipo seria agir abaixo da perfeição, pois só ele é perfeito. Tudo o que Deus faz, o faz, em última instância, por que assim o quis, nada é capaz de levar Deus a fazer o que Ele não quer

 

Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! - Romanos 11.33-36

 

Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade - Efésios 1.5

 

    Quando juntamos os conceitos temos que pensar que, inegavelmente, como vimos nos versos acima, Deus é o soberano, mas o que tinham em mente os escritores bíblicos quando falavam sobre isso? Será que a ideia era um ser que controlava cada pensamento, movimento e decisão humana, ou alguém que exerce um governo perfeito onde sua vontade prevalece, sem que as pessoas sejam violadas?

    Acredito sinceramente, que se Deus controla cada aspecto da vida humana, ele se torna obrigatoriamente o criador do mal, quando a Bíblia assevera como já dissemos, que:

 

Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta.

Não vos enganeis, meus amados irmãos.Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. - Tiago 1.13, 16-17

 

    Não estou aqui desconsiderando situações difíceis, mas necessárias, que apesar de desagradáveis, são, em seu resultado, boas. Ou até mesmo o justo juízo de Deus, que punirá os ímpios que rejeitam a verdade.

    Estou falando da maldade que motiva atos horrorosos na humanidade como estupro, racismo, genocídio, sequestros, terrorismo. Se Deus tudo controla, como alguns afirmam, então ele é, em última análise, o idealizador, o que ordena e, por que não, quem realiza essas atrocidades.

    Abro aqui um parêntesis para responder sua provável pergunta silenciosa, existe uma imensa diferença em permitir atos que serão julgados e punidos justamente, com ser o autor desses atos.

 

Outros atributos de Deus

    Uma coisa que, penso eu, deve sempre ser considerada ao se pensar sobre a soberania, é que apesar dela ser indiscutível, não é o único atributo de Deus. De fato Deus não pode ser limitado por nada exterior a ele mesmo e sua vontadade é sua única real motivação, mas Deus pode ser limitado por si mesmo, ou seja, outros atributos, também indiscutíveis e infalíveis de Deus, podem colocar limites na sua atuação e motivação.

    Um pouco acima citamos um texto bíblico que assevera que Deus não pode ser tentado pelo mal, isso acontece por causa de sua natureza eternamente boa e santa. Sim Deus é soberano e faz o que quer, mas Deus é bom e santo e por isso, por causa de si mesmo, não pode querer, desejar ou decretar o mal.

    Quando estudamos a gama de atributos de Deus evidenciados nas escrituras encontraremos os chamados atributos de natureza de Deus, como: Onipotência, onisciência, onipresença, eternidade, infinitude, espírito etc. Mas também encontraremos os chamados, atributos morais de Deus, como: amor, santidade, bondade, mansidão, ira, fidelidade.

    Juntando todos esses atributos existe um atributo que chamaremos aqui de perfeição que faz com que todos esses atributos, naturais e morais, existam de forma perfeita e de maneira alguma, em nenhum momento se anulam ou se chocam.

    Dessa forma podemos entender que amor e ira de Deus, não são contradições. Que o poder de Deus nunca irá violar a sua santidade, sua onisciência não vai ignorar sua fidelidade e por aí vai.

    Além disso existem algumas “limitações lógicas”, que nos garantem que Deus não pode fazer coisas sem sentido. Por exemplo Deus não pode criar um círculo quadrado, ou criar uma rocha maior do que ele mesmo. Essas coisas são ilógicas e, por isso, impossíveis de serem feitas. Talvez alguém tenha torcido o nariz nesse parágrafo, mas isso vai ter que ser tratado em outro texto.

    Nunca poderemos discutir o que Deus tem o poder de fazer, no sentido de sua capacidade e habilidade. Não existe a menor possibilidade de acreditarmos que Deus não teria a capacidade de controlar cada aspecto do universo milimetricamente, sem que, até mesmo cada uma das palavras que estou usando aqui fossem, na verdade, determinações dele, e eu fosse, apenas, um robô evidenciando sua grandeza. A questão é, será que isso não violaria outros aspectos do caráter de Deus? Será que isso seria santo? E como já colocamos, será que isso não faria de Deus o criador, ordenador e executor de atrocidades como o estupro?

    Esse questionamento não é, em nenhuma hipótese, o questionamento do barro ao seu oleiro, com o grito de ‘porque me fizeste assim?’ Não! Estamos apenas seguindo o que a Bíblia, que cremos, ser a revelação que Ele deu de si mesmo, assevera sobre Ele. A Bíblia não pode conter contradições, nem Deus, não porque não queremos, mas por que Ele assim, soberanamente, se revelou a nós.

 

Deus é bom!

    Quando leio a bíblia, em qualquer um dos seus livros, ou testamentos, penso que existe um grito em toda ela, DEUS É BOM! Os juízos, a ira contra o pecado e idolatria, os profetas indignados não suplantam a voz do salmista declarando vez após vez: Deus é bom e seu amor dura para sempre! De geração em geração Deus é bom!

Na nossa denominação (na falta de expressão melhor) temos o hábito de dizer em uníssono: Deus é bom em todo o tempo e em todo tempo Deus é bom. Penso que isso é simplesmente bíblico. Os rigores da lei de Moisés não impediram Nicodemos, profundo conhecedor da lei mosaica, de olhar para Jesus e reconhecer que ele era de Deus, porque ninguém faria as maravilhosas obras de bondade que Jesus fazia se Deus não fosse com ele (João 3).

O apóstolo Pedro, em sua segunda carta nos conduz por um raciocínio que quero repetir aqui

Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação, se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso - 1ª Pedro 2.1-3

 

Acho que são maravilhosas as verdades contidas aqui, vejamos:

  1. Nós devemos nos despojar daquilo que nos aprisionava, agora que somos nascidos de novo, ou livres do poder do pecado. Veja que a bíblia indica que somos nós que fazemos isso. Se fosse Deus que fizesse isso em nós esse texto seria um teatro. Não há dúvidas que é o poder e a graça de Deus que nos capacitam a fazer, mas somos nós que devemos, pela graça de Deus, nos despojar.

 

  1. Podemos fazer isso, porque vamos receber o genuino leite espiritual que nos dará o crescimento, ou a força para vencer o velho procedimento. Mas nós devemos desejar ardentemente. Novamente somos nós que devemos fazer algo aqui, se assim não fora, seria mais um teatro e seria necessário uma segunda bíblia com aquilo que a primeira não disse

 

  1. Mas todo esse processo só pode começar depois que se tem a experiência de que o Senhor é bondoso!!!

 

    Que coisa linda! A palavra traduzida por “experiência” no verśículo 3 traz a ideia de experimentar, provar, reconhecer. E aqui é obvio que Pedro tem em mente o salmista que dizia:

 

    Oh! Provai e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia - Salmo 34.8

 

Penso que Pedro está nos ensinando aqui que todo entendimento de Deus deve vir após o reconhecimento e entendimento de que o Senhor é bom. Antes de entender qualquer coisa sobre Deus, devo entender que o Senhor é bom.

Isso corrobora com o que disse o apóstolo Paulo em Romanos 2.4, ao afirmar que é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento. Não! Não é a manipulação, o controle ou o cajado, é a bondade de Deus, que nos leva a nos arrependermos.

 

Jesus é a vontade de Deus

    Além dessa, clara, tendência de exaltar a bondade de Deus, a Bíblia nos ensina que Deus tem uma revelação plena e exaustiva dada aos homens, que é Jesus Cristo.

 

    Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas - Hebreus 1.3

 

    Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele...

    ...porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude - Colossenses 1.15-16, 19

 

    Estes e muitos outros textos asseveram que Jesus é a revelação plena de Deus. Ele mesmo asseverou ser o único caminho até Deus, além de declarar, sem rodeios “quem vê a mim vê o pai”.

    Ele disse aos fariseus em João 5 que só fazia o que via o pai fazer, podemos sem medo afirmar que as obras e palavras de Jesus, são a mais perfeita representação da atuação de Deus para com a humanidade.

    Agora pense sobre isso, só o fato de o “o verbo se tornar carne”, “reconhecido em figura humana”, mostra Deus realizando uma gigante obra para restaurar o que se havia perdido.

 

    Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido - Lucas 19.9-10

 

    Essas poderosas afirmações de Jesus na casa do publicano arrependido Zaqueu, mostram muito sobre a atuação de Deus, mas nos gera algumas perguntas:

  1. Se Deus controla tudo, como Jesus, a perfeita representação de Deus, diz que Zaqueu estava, at[e aquele dia, perdido?

 

  1. Zaqueu era judeu, e chamado por Jesus de filho de Abraão, sendo assim, ele não deveria ser automaticamente guardado pela Aliança de Deus com Abraão?

 

  1. Como assim, a salvação tinha chegado quando ele se arrependeu?

 

    Outra , interessante, passagem de Jesus está em Mateus 23:

 

    Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! - Mateus 23.37

 

    Jesus está aqui lamentando, o que já não teria sentido se tudo estivesse “no controle”,pelo fato dos judeus e da cidade de Jerusalém não terem se arrependido com sua pregação. E a última frase, não deixa dúvidas, eles não receberam Jesus porque não quiseram, mesmo que esse fosse o seu desejo.

    É óbvio que não temos todas as respostas, como disse no início a igreja tem se debruçado sobre esse assunto por séculos, sem chegar a uma conclusão. Mas se Deus age de uma forma não revelada por Jesus, então Jesus não é Deus, nem a representação exata do seu ser e deve existir, realmente, uma bíblia oculta que não temos acesso.

    Mas se Jesus é, como a bíblia afirma, a vontade de Deus, então vemos que os planos de Deus prosperam e prevalecem, sem que as pessoas sejam violadas, a ponto de ser necessário um plano tão drástico como o da cruz, que de outra forma seria totalmente desnecessário, ou apenas, “pirotecnia” divina.

    Esse tipo de pensamento obriga muitas passagens da bíblia a serem teatro, por exemplo os profetas que apelavam de todas as formas possíveis que as pessoas de sua época se arrependessem. Cada “se” da bíblia seria falso, o inferno não teria sentido de ser, a não ser para Deus evidenciar seu lado macabro e os galardões nada mais seriam do que injustiças divinas baseadas em acepção de pessoas.

 

Então como Deus governa?

    Vou apelar aqui para o bom senso, pense comigo, como são governadas as nações? Obviamente não é por suas autoridades controlando cada ação dos seus cidadãos. Mesmo que seja uma ditadura, não existe controle, existem leis, que determinam o nível de liberdade das pessoas. Países livres tem leis que exaltam a liberdade, países fechados tem leis que restringem a liberdade.

    É óbvio que essa analogia, como todas, é limitada, mas nos dá uma pista de como Deus pode sim, governar tudo, sem ter que controlar tudo. Novamente não estamos questionando a capacidade de Deus, ou impondo a Deus limites, mas mostrando como Deus em seu perfeito caráter pode, por que quer, se impor limites.

    Deus é o criador de todas as coisas, a causa primeira, o início de tudo, inclusive do tempo, estando ele mesmo acima de tudo. Dessa forma tudo que existe, existe por que Deus assim o quis. Se ele não quisesse nada existiria.

    Deus pode, porque é Deus e soberano, criar seres com poder de decisão para que o amem verdadeiramente e o adorem em espírito e em verdade e, então,  respeitar essas decisões, pois esse poder de decisão foi dado por Ele e se Ele o violasse estaria violando a si mesmo. Meu poder de decisão, não é, de forma alguma maior do que Deus, pelo contrário, é exatamente o que Deus quis que fosse. Dessa forma quando decido, não estou indo contra Deus, mas fazendo o que Deus me criou para fazer, seja essa decisão certa, ou errada.

    Agora, como Juiz de toda terra, Deus vai me premiar, caso minhas decisões forem corretas, ou me punir, se minhas decisões forem erradas. Muitas vezes somos levados a pensar, pelo pensamento de nossa época, que liberdade é fazer o que quer de qualquer forma, mas isso não é nem perto a verdade. Liberdade é agir de acordo com as leis. Mesmo hoje no mundo pós-moderno, que assevera que cada um deve buscar a sua verdade, se você se sentir a vontade para roubar alguém, por que essa é sua verdade, e for pego você será preso. Ou seja, eu estou livre, enquanto estou andando de acordo com as leis, a partir do momento que violo as leis, minha liberdade deve ser cerceada.

    Deus é o juiz de toda Terra, além de seu governante, dessa forma ele estabelece as leis, pelas quais a terra é regida, mas também julga os transgressores da lei. Não se deve confundir lei aqui, com a lei mosaica abolida na cruz do calvário, mas as leis universais da natureza e morais reveladas na criação e nas escrituras.

    É comum, e até certo ponto correto, afirmarmos que “nehuma folha cai da árvore, se Deus não permitir”. Isso quer dizer que Deus está autorizando expressamente cada folha que cai? Não, Deus criou a lei da gravidade e as estações climáticas que faz com que as folhas tenham uma duração e quando essa duração chega ao fim a gravidade atua sobre elas e elas caem. Foi Deus que permitiu isso? Sem dúvida, ele precisou mandar um ofício celestial para que a folha caisse? Não

    Esse, me parece, ser o padrão de governo de Deus revelado em toda a bíblia, começando no Éden e terminando na juízo do grande trono branco em Apocalipse. Deus estabelece e revela as regras, o homem as viola, ele avissa, pede que se arrependam e então determina sentenças. O Velho Testamento é uma sucessão de repetições desse padrão.

    Em Cristo o homem tem a chance de parar esse processo, pois Deus, soberanamente impos sobre Cristo a nossa pena, mas ainda assim Pedro assevera que o Juízo começa pela casa de Deus, que preparou de ante-mão boas obras para que andássemos. Vemos claramente o juízo das nações, o juizo dos ímpios por não receberem a verdade e etc.

    Dessa forma, penso, que a soberania de Deus é revelada também em nossas escolhas, mesmo que elas sejam realmente livres.

    Por isso penso que podemos dizer, sem violar o caráter de Deus, que Ele a tudo governa, mas ele não precisa e nem sempre “está no controle”