Estudos

Estudos para aqueles que amam esquadrinhar as escrituras

on Quarta-feira, 3 de agosto de 2016

 

Salmos 50.3-4 - Vem o nosso Deus e não guarda silêncio; perante ele arde um fogo devorador, ao seu redor esbraveja grande tormenta. ​Intima os céus lá em cima e a terra, para julgar o seu povo

 

            De todos os assuntos bíblicos, acredito que o mais temido e incompreendido é o Juízo Eterno. Integrante do grupo de ‘princípios elementares da doutrina de Cristo’ (Hebreus 6.1), o elemento do juízo e a revelação de Deus como juiz está espalhada em toda a Bíblia, do Éden ao Grande Trono Branco. Ainda assim muitos cristãos o desconhecem, não entendem o porque e, é bem possível, que alguns achem, o justo juízo de Deus, injusto.

Como citei acima, não podemos avançar no entendimento do Cristianismo se não entendermos esse princípio elementar. Faz parte da nossa crença e a bíblia é clara ao dizer que todos o enfrentarão, ricos e pobres, jovens e velhos, crentes e ímpios, anjos e demônios.

Como disse são inúmeras as citações de Deus como juiz, vejamos algumas:

 

Gênesis 18.25 - ​Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?

 

Juízes 11.27 - Não sou eu, portanto, quem pecou contra ti! Porém tu fazes mal em pelejar contra mim; o SENHOR, que é juiz, julgue hoje entre os filhos de Israel e os filhos de Amom

 

Salmos 7.11 - Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias

 

Isaías 33.22 - Porque o SENHOR é o nosso juiz, o SENHOR é o nosso legislador, o SENHOR é o nosso Rei; ele nos salvará

 

2ª Timóteo 4.8 - Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda.

 

            Esses são alguns poucos versículos, selecionados com dificuldade diante da vastidão de textos existentes, mostrando, em várias porções das Escrituras, como a revelação de Deus como Juiz é consistente. Penso que a doutrina do juízo está intrinsecamente ligada a da soberania. Ao entendermos Deus como governante único do universo, temos que compreender Deus como juiz, pois ele é um governante santo, justo e bom. Um governante que não traz juízo promove a anarquia.

            É importante entendermos e pensarmos sobre o juízo, pois isso levanta em nós o temor do Senhor, nos dá senso de destino e responsabilidade cristã. Apesar de não gostar de ver o juízo apenas negativamente (já vamos falar sobre isso), não resta dúvidas, que ao entendermos Deus como juiz, além de pai, nossa consciência se sente alertada sobre nossas ações e motivações.

            Digo motivações porque a palavra de Deus revela que todas as coisas diante dele estão nuas e patentes (Hebreus 4.13). A palavra chega a dizer que nossa consciência será testemunha tanto de defesa quanto de acusação em nosso julgamento.

Diferença entre juízo e salvação

            Acredito que o ponto central do medo (diferente do temor do Senhor) que muitos têm quando o assunto é o juízo eterno, é por pensarem que suas salvações não são garantidas antes do juízo, ou que do tribunal celestial podemos ser lançados para o inferno. Nosso inconsciente coletivo (nem tão inconsciente assim) está cheio de imagens sobre a fila certa a pegar, ‘São Pedro’ segurando as chaves e selecionando quem entra, ou não e coisas do tipo.

            Mas permita-me dizer que salvação e juízo são coisas distintas e seguem princípios diferentes.

            Nossa salvação não está baseada em nada que façamos. Há quem pense que por ter uma vida ‘mais’ correta tem salvação mais garantida que outro que não vive tão firme assim, não está todos os cultos na igreja, não tem uma vida de leitura e oração consistentes etc. Desculpe-me frustrar você se esse é o teu pensamento. Se dependesse de nossas boas obras o único destino que seríamos dignos seria o inferno.

            O pecado que nos matou (espiritualmente) é muito maior do que nossa vida correta e nenhum homem, jamais foi salvo por qualquer coisa que tenha feito. Não, nossa salvação é resultado da obra única de Jesus Cristo na cruz do calvário. Por isso somos salvos de graça.

            Gosto de dizer que salvação depende de como alguém se relaciona com Jesus Cristo. Paulo afirmou categoricamente: “Todo aquele que o invocar, será salvo” (Romanos 10.13). O apóstolo dos gentios também foi enfático ao afirmar que a salvação não é das obras:

 

Efésios 2,8-9 - Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie

 

            Diferente da salvação o juízo é exatamente pelas obras. É importante alertar aquele que pensa que, por não salvar, o valor das obras está descartado. Na sequência do texto acima, Paulo mostra como as obras fazem parte da vida cristã

 

Efésios 2.10 - Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas

 

            Não, elas não nos salvam, mas elas contam, pois fomos criados para realizá-las. Jesus nos conclamou a realizar as suas obras e outras ainda maiores, Ele que era poderoso em ‘obras e palavras’. Quase tão vasta como a doutrina de Deus como juiz é a que afirma que seremos julgados por nossas obras. Vejamos:

 

Salmos 62.11-12 - Uma vez falou Deus, duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus, ​e a ti, Senhor, pertence a graça, pois a cada um retribuis segundo as suas obras

 

Jeremias 17.10 - ​Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações

2ª Coríntios 5.10 - Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo

 

Apocalipse 22.12 - E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras

 

            Olhando para todas as referências acima fica fácil vermos que o juízo nada mais é do que a justa retribuição de Deus a cada um pelo tipo de vida que a pessoa resolve viver. De Deus não se zomba, avisa o apóstolo Paulo aos Gálatas, tudo o que o homem semear isso vai colher.

            Estamos aqui focando no juízo eterno, mas não podemos deixar de citar eventuais juízos de Deus ‘antes da hora’. Normalmente esse tipo de juízo vem sobre pessoas e povos que estão vivenciando pecado da forma muito destacada. Citamos aqui o dilúvio, Sodoma e Gomorra, Herodes e o casal Ananias e Safira. Casos típicos da intervenção divina em pessoas, ou povos que ‘foram longe demais’.

Juízo de justos e injustos

            Algo que precisamos destacar e definir é que o juízo não é nem bom, nem mal. Não é disso que se trata. Talvez ao ler o último parágrafo tenha surgido em você a pergunta: “mas se Deus é bom como ele pode fazer isso?” O Juízo não é bom, ou mal, o juízo é justo e por isso necessário.

            Pense no caso em que alguém faz uma compra em uma loja virtual na internet. Paga o valor, dá o endereço de sua casa e a loja não entrega o produto, não dá satisfações e não atende ao cliente. O que se deve fazer nessa situação?

            A resposta é óbvia, deve-se entrar na justiça. O cliente que foi lesado deseja o julgamento, anseia por ele, por saber que fez o certo, sabe que está correto e tem direitos. Já a loja, talvez, veja o mesmo julgamento de outra forma.

            Neste caso o julgamento é ‘bom’ para o cliente e ‘mal’ para a loja. Mas na verdade o julgamento não é nem uma coisa, nem outra, é apenas justo.

            Como dissemos acima, juízo não está ligado a salvação, o justo é julgado assim como o ímpio, mesmo destinado a perdição, também será julgado. Salvação tem quem crê em Jesus Cristo, mas ainda assim, minhas obras como cristão serão julgadas. Como já vimos acima o bem ou mal que tiver feito através do corpo

            Talvez surja a dúvida: ‘E o ímpio será julgado pelo quê?’ Em primeiro lugar, devemos salientar que o ímpio vai de forma justa para o inferno por causa do seu pecado, não por nenhum outro motivo. Ele não tem direito a salvação por que não crê em Jesus, mas ainda assim a Bíblia fala que eles serão julgados por suas obras e que haverá rigores diferentes.

 

Apocalipse 20.11-13 - Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o hades entregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um, segundo as suas obras

 

Mateus 11.20-24 - Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara numerosos milagres, pelo fato de não se terem arrependido: ​Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza. ​E, contudo, vos digo: no Dia do Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. ​Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá, no Dia do Juízo, para com a terra de Sodoma do que para contigo

 

            Não tenho clareza de como isso se dará, mas acredito que o texto não deixa dúvidas de que mesmo os ímpios receberão de acordo com as suas obras. Da mesma forma se dará com a igreja, pois mesmo salvos, haveremos de passar pelo juízo de acordo com nossas obras.

 

1ª Pedro 4.17 - Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?

 

1ª Coríntios 3.12-13 - Contudo, se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará

 

            Veja que assim como Jesus afirmou que haverão rigores diferentes para os ímpios, Paulo deixa claro que haverão galardões, ou prêmios diferentes para a igreja. Vale relatar que no texto de 1ª Coríntios é afirmado que mesmo aqueles não aprovados no juízo serão salvos.

 

1ª Coríntios 3.14-15 - Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; ​se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo.

 

            Sobre o teor do juízo, existe outro texto do apóstolo Paulo, muito elucidativo sobre o caráter do juízo divino, está em Romanos no capítulo dois:

 

Romanos 2.1-10 - ​Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas.

2 ​Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas.

3 ​Tu, ó homem, que condenas os que praticam tais coisas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus?

 

Vamos aqui a universalidade e a tendência justa do juízo de Deus, e como devemos ter temor em nossas atitudes.

 

4 ​Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?

 

            Como já afirmamos é a graça de Deus que opera a nossa salvação, por isso não devemos desconsiderar essa bondade a que fomos alvo.

 

5 ​Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus,

 

            Um aspecto interessante é revelado aqui, a maldade cometida vai sendo acumulada para o juízo e ira de Deus, por isso é necessário a atitude de arrependimento citada no verso anterior. A graça conduz ao arrependimento e apaga o acumulado de maldade, mas o coração impenitente vai acumulando um crédito nefasto.

 

6 ​que retribuirá a cada um segundo o seu procedimento:

7 ​a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade;

8 ​mas ira e indignação aos facciosos, que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça.

 

            Vemos aqui exatamente o que temos afirmado:

  1. Julgamento segundo as obras
  2. Prêmio para quem faz o bem
  3. Condenação para quem faz o mal

 

9 ​Tribulação e angústia virão sobre a alma de qualquer homem que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego;

10 ​glória, porém, e honra, e paz a todo aquele que pratica o bem, ao judeu primeiro e também ao grego.

11 ​Porque para com Deus não há acepção de pessoas

 

            Por último é mais uma vez destacada a universalidade do juízo. Não há direito de nascimento, não há intercessão. Ser judeu, ou gentio não faz diferença, mas sim o procedimento, as obras.

            Na próxima semana vamos falar em um segundo texto sobre os vários juízos, além de atenuantes e agravantes e como garantir o prêmio prometido.

            Por enquanto fique atento em seu proceder, corra para Deus e sua Palavra e sua graça vai te fortalecer e capacitar para toda boa obra.